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sábado, 6 de dezembro de 2008

Sua Boca


Toco a sua boca com um dedo, toco o contorno da sua boca,
vou desenhando essa boca como se estivesse saindo da minha mão,
como se, pela primeira vez, a sua boca entreabrisse,
e basta-me fechar os olhos para desfazer tudo e recomeçar.

Faço nascer, de cada vez, a boca que desejo, a boca que minha mão escolheu
e desenha no seu rosto, uma boca eleita entre todas, com soberana liberdade,
eleita por mim para desenhá-la com minha mão em seu rosto,
e que, por um acaso, que não procuro compreender, coincide exatamente com a sua boca,
que sorri debaixo daquela que minha mão desenha em você.

Você me olha, de perto me olha, cada vez mais de perto, e então brincamos de ciclope,
olhamo-nos cada vez mais de perto e nossos olhos se tornam maiores,
se aproximam uns dos outros, sobrepõe-se, e os ciclopes se olham, respirando confundidos,
as bocas encontram-se e lutam debilmente, mordendo-se com os lábios,
apoiando ligeiramente a língua nos dentes, brincando nas suas cavernas,
onde um ar pesado vai e vem, com um perfume antigo e um grande silêncio.

Então as minhas mãos procuram afogar-se no seu cabelo, acariciar lentamente a profundidade do seu cabelo, enquanto nos beijamos como se estivéssemos com a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de fragrância obscura.
E se nos mordemos, a dor é doce; e se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo de fôlego, essa instantânea morte é bela.
E já existe uma só saliva e um só sabor de fruta madura,
e eu sinto você tremular contra mim,
como uma lua na água.

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